quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

o catavento de fulô

Como tudo que é bom o catavento de fulô nasceu de um encontro. E não foi encontro de esquina, foi-bom-não-foi, mas desses do tipo que pegam assim de jeito e transformam o sujeito.
Encontro de gente com gente, gente com flor, flor com gente, gente-flor.
Objeto concreto, o catavento também é não-objeto. O catavento não é um, não é único, não é qualquer um. O catavento é nenhúnico.
Catavento vive de brisa? Do vento que venta de fora pra dentro, catavento nada guarda. Sábio catavento sabe que tudo que é vento um dia passa. Então, de tudo que venta, o catavento inventa e assim se reinventa. O catavento ultrapassa o vento que passa.
E quando o vento não passa? Oras, tudo que não passa, fica!

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

poemas do catavento


.


[ primeiras palavras do catavento ]




vai voando
rapidinho passarinha
vôo livre
linhas soltas passarinha
vôo certo
tempo curto passarinha
que o dia é breve
pra tanto pouso passarinha


.


[ primeiros cataventos em palavras ]


catavento de fulô
gira quando sopra
o vento do meu amor



.

cata vento
cata sopro sentimento
cata vento
cata capta o momento
cata cada elemento
cata tudo quanto é vento
cata rápido cata lento
cata até pensamento
cata vento é moinho
cata vento é torvelinho
cata vento meu amorzinho
cata capta teu jeitinho
cata cata e desata
cata rio cata nuvem
cata pedra no caminho
cata dia e noite e dia
cata e gira com carinho

.


[ liú bliú! ]




normamor
norma mora
no meu coração

norma flor
flor aflora
flor de paixão

cor da flor
flor de amor
cor coração




.


palavra que lavra
perdura
meu sentir
suave
dentro de mim
à volta tua
ainda circula



.


Se somos um e dois
importa guardar o um
de cada um de nós.

Se somos um em dois
o dois em nós
é nosso bem comum.







.


Teu jardim


Teu jardim
meu amor
é lugar onde cultivo
o melhor de mim.
Teu jardim
minha cor
é mais que chão
solução
de sutil equação:
viver além de mim.
Teu jardim
minha flor
é onde me jogo
semente
querendo somente
ser teu
enfim

.




hoje é noite
é de festa junina

balão baião
paçoca quentão

queria comigo
moça londrina

balão baião
paçoca quentão

mas... ai, que frio!
ela pode vir não...

balão baião
paçoca quentão

hoje é noite
é de festa junina...


.





Moça-cor

A moça acorda
e vê e sente a cor do dia.
O dia tinge de cor a cor da moça
e ela toda
furtacor
de cor se finge:
cromacamaleoa
vive em si a cor oração
na coloração do dia.


.

passarinha poeta
palavra voa
vôo lento
quietinho
quentinho
voa adentro
fazendo ninho
aqui dentro
de mim



.


de dar dó
a saudade que sinto
dó de xodó
xodó de domingo



.


[ sentidos ]




Norma e a esfinge

de tudo que olhas
teu olhar sente e indaga
tateia
e tatua
o mundo
teu olhar
adaga negra e profunda
em tudo que pousa
estranha
se entranha
mergulha fundo
cheiro
sabor
cor
tato
em tudo teu olhar é ato
em tudo se faz presente de fato
teu olhar
sabe que não se sabe nada sobre
assim a tudo que tinge e toca
rasga
corta
perfura
sin jamás perder la ternura
teu negro olhar de menina
sabe e ensina
se tudo que é também se finge
nenhum saber é sábio
só o sabor vence a esfinge.



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o fruto

a partir da tela
“Women with Mangoes”,
de Paul Gauguin


o fruto se sabe
simples lúcida verdade
o fruto é todo corpo
e carne e entranhas
o cheiro bruto a escarnecer de essências
o fruto é
(sim)
essencial
não se apraz em platônico enlace:
ao invés: abandona-se aos bocados
sobrevive no partir
e vai-se
em sacro ofício de si
submerge em sementes
na terra escura



.

tua
palavra
certa
tua
palavra
seta
tua
palavra
acerta
em cheio
o meio
de nós



.

[ 4 poeminhas pelo celular ]


nuvens são árvores
suspensas
em louca revoada

pedras são nuvens
cansadas
longe de casa

.

fim de tarde
luz indo
luzindo leve
tingindo
ares de domingo
no dia que se esvai

.

movimento
lento
respira
dentro

tempo
silêncio
em torno
denso

.

enquanto o dia
nasce
e segue
seu caminho
meu rio
leve
levado por lembranças
reflui:
guardo tua presença


.

Todos os poemas para
Norma O.

passarinha,
céu de melancia,
pérola rubi,
onomacentopéia,
lagartixa-macunaíma,
fio d'olhos d'água,
luz dos olhos negros,
dona moça,
vagas estrelas,
porta-bandeira...

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R.M.


2007 - 2008

.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Meditações


foto Raul Motta


Varrendo o tempo



As folhas soltas, espalhadas pelo chão, são como um tapete inconstante, desenho tramado pelo vento que passa. Caídas, apenas reencontram o mesmo solo que as acolheu semente, nutriu a raiz, fez circular a seiva, que impulsionou a árvore, que se vestiu e despiu de folhas – essas mesmas folhas que ainda há pouco respiravam, delicadamente suspensas entre céus e terra.

Agora, varrendo as folhas, uma a uma, observo. E respiro. E vejo, varrendo as folhas, a cada uma como uma, e a todas elas. E respiro, todo. E vejo, e revejo, cada uma de uma vez e a todas, todo o tempo, o tempo todo, como da primeira vez. E vejo em mim a folha que respira, e a que se foi e agora respira em mim. E em todas e tudo que vejo sinto o tempo da folha. Agora, entre céus e terra, delicadamente, enquanto respiro e varro as folhas, sinto que tudo agora é tempo, o tempo é o todo e nada importa tanto quanto tudo nesse ato de varrer o tempo.


[R.M.]

[ * ] Texto produzido durante retiro
no Templo Budista Theravadaa, da Sociedade Budista do Brasil,
em Santa Teresa, Rio de Janeiro.

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Meditação I


Esquece tua vida.

Esquece.

Esquece apenas
pela certeza plena de que nada merece
o delicado vazio do tempo que agora acontece.

Esquece.

Esquece sem pressa, esquece sem prece.

Apenas esquece,
sem pesar, alegria,
combate ou rendição.

Esquece para lembrar que agora,
neste instante,
nenhuma dor, esperança, tristeza ou paixão
importa mais que este silêncio –
que só no silêncio se alcança
e só ao silêncio remete


[R.M.]