quarta-feira, 29 de abril de 2009
Anamnemosine
Infância
"Infância"; R.M.; xilogravura, 1997
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de onde vêm as palavras?
As palavras vêm da sopa.
As palavras vêm dos sons que ouvimos quando estamos com os nossos amigos.
Há palavras quentinhas, acabadinhas de sair do forno.
Se a caneta não escrever, as palavras saem pelas mãos.
As palavras vêm da lua de Inverno.
As palavras são muito tímidas e quando querem sair de casa, vão pela chaminé.
As palavras vêm do coração.
As palavras vêm da palavra “palavra”.
As palavras vêm do fogo, quando o acendemos, as palavras queimam-se e saem, iluminadas.
É da imaginação que vêm as melhores palavras.
Se fosse uma prenda com palavras más, eu não a abria.
As palavras vêm de Homero porque os poetas têm muita sabedoria.
As palavras vêm nas nuvens brancas.
Quando dizemos a palavra errada ela desaparece.
Ana, Ana Rita, João L., João R., Carina, Adriana, Pedro, Alexandre, Inês
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http://arliquidotres.blogspot.com/2008/01/clube-da-imaginao-de-onde-vm-as.html
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"Crianças"; Raul Motta; xilogravura, 1997
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quinta-feira, 23 de abril de 2009
um dia
terça-feira, 17 de março de 2009
uns e outros haicais
Nestes inícios, não tinha a preocupação de respeitar a tradição da divisão do poema em versos de 5, 7 e 5 sílabas, mas procurava escrever a partir de experiências vivenciadas, o que contemplava duas outras regras clássicas: referir-se a um evento particular e apresentar tal evento como “acontecendo agora”, e não no passado. Mais recentemente me propus a escrever respeitando a metrificação clássica e, acredito, este exercício tem resultado em poemas que julgo mais consistentes. Estes últimos estão aqui publicados a seguir, intitulados uns; os mais antigos são os outros.
Para os leitores que tiverem curiosidade em saber mais sobre os haicais, indico duas fontes na internet:
Caqui – Revista Brasileira de Haicai
http://www.kakinet.com/

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Terra redonda
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Logo ali, o mar.
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A alma - lama
nas águas de janeiro
me lavo - leve.
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Da chuva que cai
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Meu coração

desenho: Mônica Sartori; "Sinuosidades" [ * ]
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outros
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Cadeiras de plástico:
na de madeira, solitária,
o gato.
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Rugas que contam histórias -
quanta beleza no teu rosto,
mulher!
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Quarto vazio:
minha companhia
lhe agrada?
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É apenas uma mulher
mas já não vejo
floresárvores.
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Vestida de azul
ela cruza as pernas e abre um livro.
[A beleza é uma coisa simples]
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Nem o sol do meio-dia
desfaz a névoa
do meu coração!
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Branca borboleta
me aponta o vermelho
em meio o verde.
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Presente dado
a quem está ausente:
dela me lembro.
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Uma árvore... e ninguém por perto!
Por quê não?
Infância perdida...
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À beira do riacho
penso mergulhar em sua corrente
minha memória pesada.
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Triste a cabeça
repleta de pensamentos:
peneira fina.
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A luz
se acende
depois do happy end.
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No topo da montanha,
a surpresa:
ainda falta para o céu!
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O buda
sob a lâmpada:
duplamente iluminado.
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noitevaranda
enquanto estrelas
mimetizam pirilampos.
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Teu silêncio -
morno - e o mar
em torno.
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[R.M.]
[ * ] Mônica Sartori é representada pela Galeria Anna Maria Niemeyer
http://www.annamarianiemeyer.com.br/
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"one word, one buddha"

poemas distantes
Elegia
amiga, não é doce
como o vinho...
Sorvo agora,
em um rubro cálice,
saudades tuas
e em teu corpo
penso. E o perfume,
inebriante
alma das horas,
alento dos convivas,
a mim me toca
como ausência
dolorosa e triste,
de luz vazia...
Amada, teu bem
ainda não é o meu.
O coração da vida
não se alcança
apenas em palavras...
Inda que belas,
são como o gelo:
formas limpas, perfeitas,
a querer d’água
a fluidez, o
fluxo – e o destino:
se perder no mar...
Assim, desejo
a sublime ventura:
ao amar, ir – e
no Amor, chegar;
em teus braços saber
o que é nadar...
II
nada sei do teu corpo
senão miragens ...
E, só, caminho
por vales, planícies
desertas e vãs,
enquanto sobram
as horas e os dias
desalentam-se,
entorpecendo –
me como o vinho, já por
demais sorvido
em tosco rito -
pálido arremedo
a Dioniso.
A taça, leve,
e a garrafa, oca,
são oferendas
mínimas – e o
deus exige além:
enovelar-se,
extenuado,
preenchendo o vazio
entre corpos nus,
abeberar-se
da seiva acridoce
dos sexos, quente
como o sangue nos
corações... E, só então,
consagrar os dois
amantes, dourar
seus corpos e untar
suas almas sãs.
III
distância, agora,
é aura onde
faço cálida
morada. Entre tantas
és a única
por que anseio:
por teu nome eu peço,
por teu hálito,
aqueço; sendo
um, enlouqueço; dois,
me reconheço...
Ah! Se pudesse,
agora, sentir de ti
o sumo prazer,
o inefável
toque que imagino,
apenas! Tremo,
e o frêmito
que me corre inteiro
é sombra frente
ao real sentir,
ao túrgido turbilhão!
Mas, espero - e
a alma é mar,
sopra o vento, vago...
E trago em mim,
por sob a pele,
o brilho das estrelas
frias, distantes...
- Enquanto guardo
o mergulho profundo
que ensaio, só.

asas
voam
e
são
tantas
as flechas
as flamas
os nomes
do
amor
que
a cada vôo
se me jogo inteiro
e me perco em tudo que me cerca
sinto que o mais em mim não me sustenta
(que sou muito mais que meu coração agüenta)
e volto ao solo, ao chão, ao colo de um deus desequilibrado e trôpego...

z o n a e s cu r a
Qual serpente
dulcíssima e negra
[que à luz do dia se recolhe em corpo]
do teu ventre
parte o movimento
linha súbita
espiralada e crescente
pura grafia
alfabeto constelar transcrito em gestos a desvelar aparências:
a matéria se quer última semente
ponte sutil
entre tantos mundos existentes.
terça-feira, 3 de março de 2009
tempo[s]
urge
e trama
o tempo
traça
e troça
o tempo
clama
e cama
o tempo
é templo
e chama
[ o tempo
em nada pousa
o tempo
pesa
ou
repousa ]
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