quinta-feira, 29 de julho de 2010

agora e sempre





belo elo
entre tantos
somos dois

belo elo
entretanto
somos nós







R.M.
para Chris


[foto Chris Valente]

segunda-feira, 26 de julho de 2010

pelos poros

Tatiana Blass, "Eno", 2003




por
onde

por
onde
por

por
onde
meu
rigor

depois

do
amor?





R.M.
para Chris

sábado, 10 de outubro de 2009

um sonho





havia
sol
e luzia
azul flores cheiro
teu abraço
eu você
nada falava
tudo em luz

se dizia




[ R.M. ]



foto R.M. ; série "a vila"; Londrina, 2007

sábado, 3 de outubro de 2009

todo ouvidos para o teu olhar



me ensina
você
a vida
off sina






[ R.M.N.O. ]
poema + imagens

terça-feira, 22 de setembro de 2009

maré

Vincent Van Gogh



às vezes me fico assim
barquinho na areia esperando
amormar
me lamber
me levar





[R.M.]

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

semente II [ * ]


me planto a teus pés
e espero
o tempo que flor








[R.M.]

[ * ] em diálogo livre, como só poderia, com o poema
“seja lá o que flor”, da Mariana
http://www.buhobranca.blogspot.com/

terça-feira, 25 de agosto de 2009

inteiro [ * ]




um corte
no cerne da carne do tempo -

o sentido
escorre como seiva -

pode a dor ser
f[r]esta para os olhos?







Haia O.; pintura; s/t.; 2008

.

[ * ] R.M. para pintura de Haia O.

domingo, 23 de agosto de 2009

tanto

Haia O.; pintura; s/t; 2008




ferida a alma
do ancestral desejo
à carne segue

abissais
cânticos, orações
desconhecidos bálsamos

a súplica é ser
do amor o mar
submerso em si


.

[R.M.]

domingo, 19 de julho de 2009

Solidão e falsa solidão

Alguns textos nos chegam às mãos quando menos esperamos – e estes costumam ser os melhores. Pois foi num desses momentos que me caiu no colo do olho esta crônica de 7 de junho de 1969, na qual Clarice Lispector faz uma longa citação de Thomas Merton:

.

“Eu, que pouco li Thomas Merton, copiei no entanto de algum artigo seu as seguintes palavras: ‘Quando a sociedade humana cumpre o dever na sua verdadeira função, as pessoas que a formam intensificam cada vez mais a própria liberdade individual e a integridade pessoal. E quanto mais cada indivíduo desenvolve e descobre as fontes secretas de sua própria personalidade incomunicável, mais ele pode contribuir para a vida do todo. A solidão é necessária para a sociedade como o silêncio para a linguagem, e o ar para os pulmões e a comida para o corpo. A comunidade, que procura invadir ou destruir a solidão espiritual dos indivíduos que a compõem, está condenando a si mesma à morte por asfixia espiritual.’
“E mais adiante: ‘A solidão é tão necessária, tanto para a sociedade quanto para o indivíduo que quando a sociedade falha em prover a solidão suficiente para desenvolver a vida interior das pessoas que a compõe, elas se rebelam e procuram a falsa solidão. A falsa solidão é quando um indivíduo, ao qual foi negado o direito de se tornar uma pessoa, vinga-se da sociedade transformando sua individualidade numa arma destruidora. A verdadeira solidão é encontrada na humildade, que é infinitamente rica. A falsa solidão é o refúgio do orgulho, e infinitamente pobre. A pobreza da falsa solidão vem de uma ilusão que pretende, ao enfeitar-se com coisas que nunca podem ser possuídas, distinguir o eu do indivíduo da massa de outros homens. A verdadeira solidão é sem um eu.’
‘Por isso é rica em silêncio e em caridade e em paz. Encontra em si infindáveis fontes de bem para os outros. A falsa solidão é egocêntrica. E porque nada encontra em seu centro, procura arrastar todas as coisas para ela. Mas cada coisa que ela toca infecciona-se com o seu próprio nada, e se destrói. A verdadeira solidão limpa a alma, abre-se completamente para os quatro ventos da generosidade. A falsa solidão fecha a porta para todos os homens.’
‘Ambas as solidões procuram distinguir o indivíduo da multidão. A verdadeira consegue, a falsa falha. A verdadeira solidão separa um homem de outros para que ele possa desenvolver o bem que está nele, e então cumprir seu verdadeiro destino a pôr-se a serviço de uma pessoa.’”

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Texto extraído de: LISPECTOR, Clarice. A Descoberta do Mundo; Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1992; p.213. O título da postagem é o mesmo da crônica.

Thomas Merton [1915-1968] Monge trapista da Abadia de Gethsemani [Kentucky, USA]; escritor, poeta, ativista social e estudioso de religiões comparadas.

+ Thomas Merton http://www.reflexoes-merton.blogspot.com/

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Paulo Sérgio dos Santos Machado

Paulo Sérgio; "Estrelas e Corações"; hidrocor s/ papel; s/d

“Meu nome é Paulo Sérgio dos Santos Machado. Nasci em 27 de agosto de 1954, no Rio de Janeiro, Brasil. Moro no Méier. Gosto de samba, pagode, forró, bossa nova, praia, esporte, amor, gosto de paz, carinho, da responsabilidade, do capricho, da dignidade, gosto do respeito, gosto de viajar, da honestidade, gosto das coisas boas, da sinceridade, gosto das boas pessoas, sou católico, gosto de pensar positivo, de imaginar positivo, gosto da vida, gosto deste mundo lindo e encantador, sou uma pessoa amiga, gosto da gentileza e também gosto da bondade, gosto da felicidade e das boas relações.
Satisfação,
Tudo de bom.”

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Não sei porque, mas hoje me lembrei do Paulo Sérgio.
Paulo Sérgio dos Santos Machado é um artista desconhecido, o que nem sempre quer dizer desimportante – pois os poucos que o conheceram, conhecem e conhecerão com certeza souberam, sabem e saberão reconhecê-lo em sua verdadeira dimensão e escala: humana, demasiadamente humana.
“Nada do que é humano me é estranho” é outra sentença nietzscheana. E Paulo Sérgio é um dos que podem dizer que viveram um pouco mais intensamente o que se oculta nesta frase. Nos seus desenhos e pinturas, Paulo Sérgio é todo luz; na vida, vive o paradoxo de saber que “toda luz projeta sua sombra.”
Do texto que escrevi para sua exposição Constelações do Universo de um Ser Humano [nome e sobrenome resultantes de um acordo entre nós, pois eu havia sugerido apenas “Constelações” e ele fez questão de acrescentar o sobrenome...], em 2003, na Galeria do Centro Cultural da Uerj, rememoro alguns trechos:

“Nos trabalhos aqui expostos, elementos recorrentes articulam uma vontade de ordem, equilíbrio e beleza [...] que se apóia quase sempre na simetria para compor uma imagem simultaneamente estabilizadora e energética do mundo e da vida. [...] as linhas se organizam como que para capturar e transcrever a imanência de forças invisíveis [e] plasmam essas forças de uma inequívoca materialidade.”
“[...] Paulo Sérgio constrói uma obra pessoal moldada pelos ideais clássicos que sempre associaram a contenção e o equilíbrio à harmonia, e esta, à beleza; mas uma obra igualmente marcada pelo dinamismo barroco de uma geometria suntuosa, quase fantástica. Assim, por essas artimanhas inerentes ao fazer artístico, sempre a nos lembrar que a verdade da arte é diferente da verdade da vida, Paulo Sérgio, que tanto preza as certezas da simetria, por meio da tensão resultante dessa articulação de opostos presentes em suas obras, nos confronta com a incerteza e a indeterminabilidade.[...]”
.
Há tempos não vejo Paulo Sérgio. Nem ao menos sei se ele continua entre nós. Mas agora sei completamente porque me lembro dele hoje: para falar um pouco de luz e de mergulhos, de belezas medidas e desmedidas.
Fica aqui a homenagem ao artista que conheci como estagiário nas Oficinas Terapêuticas do Hospital-Dia Ricardo Montalbam, do Hospital Universitário Pedro Ernesto, quando cursava minha graduação. Além das lembranças da convivência por mais de dois anos, guardo até hoje o desenho reproduzido no início da postagem, o mesmo escolhido por ele para ilustrar a capa do folder e que gentilmente me foi ofertado como agradecimento pelo trabalho que realizamos, conjuntamente, de curadoria e montagem de sua exposição.