quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Hui Neng






"Não há árvore Bodhi,
nem o cessar do brilho no espelho.
Sendo tudo vazio, onde
poderia assentar o pó?"





Tradução de Elza Bebiano do gâthâ de Hui Neng [638-713], Sexto Patriarca da linhagem chinesa do zen.
In: SUZUKI, Daisetz Teitaro [1870-1966]. "A Doutrina Zen da Não-mente"; São Paulo: Editora Pensamento, 1993.

+
imagem
Hui Neng tearing sutras

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

kyudo

certa
a palavra é
a palavra que
no poema
é alvo
e seta -
sendo arco
o poeta









[R.M.]
+
"enso" ["círculo"]; caligrafia japonesa, autor desconhecido


et circenses

o pão nosso de cada dia
com manteiga
nos dai hoje






[R.M.]

+
Marcel Duchamp; "Air de Paris", ready-made, 1919 [1964 version]. Glass and wood, 14.5 x 8.5 x 8.5 cm.

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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

poucas e boas





I

verborragia
verbo
azia




II

[de mais
a
mais
mesmo
o
menos
ainda
pode ser
demais
]





[R.M.]
[a partir de um comentário feito pela Mariana www.buhobranca.blogspot.com]
+
Mira Schendel; monotipia s/papel de arroz; 47 x 24 cm. [1964]

à Hans Arp




o acaso me trouxe até aqui
digo:
presente! aqui estou!
eu que nada sabia sobre o mundo até abrir o primeiro sorriso
desde então este mundo e eu nos queremos
como dois amantes que já se tornaram velhos conhecidos
seguindo de mãos dadas
o desejo ainda intenso de vida pela frente
tanto ainda por fazer!
quem vive pelos sentidos percebe o sentido do que vive em todas [as coisas
as mãos sempre prontas à ação
hábeis ou inábeis, não importa!
a arte não é nada?
minha resposta é o fazer e o refazer
o trabalho é minha música
seja audível ou inaudível
todo som tem sua frequência
e cedo ou tarde por alguém é captado
no ar fresco que sopra lá fora tudo existe e se completa
em tudo que respiro
sinto a presença:
arte-nada
a regra que me rege
meu não
um grande sim
ao mundo que é o mundo









[R.M.]

+

Hans Arp [1886-1966] em fotografia de 1922
"Duas cabeças" [1927]; óleo e barbante s/ tela; 35 x 27 cm

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

ludens







o

poema

é

o pio

do

ovo







[R.M.]

+

Paulo Pasta, sem título, óleo s/ tela, 2000

+

feliz por estar também em

http://buhobranca.blogspot.com/2011/02/lundes.html

grato pela poética abdução, Mariana!

domingo, 30 de janeiro de 2011

A Árvore Inútil de Chuang Tzu




Hui Tzu disse a Chuang:
Tenho uma grande árvore,
Que se chama "mal cheirosa".
Seu tronco tão torto
É tão cheio de nós
Que ninguém pode dele tirar uma só tábua.
Os galhos são tão retorcidos
Que você não consegue cortá-los
De modo a que sejam úteis.

Lá está ela à beira da estrada.
Carpinteiro nenhum a olhará.
Eis o seu ensinamento -
Grande e inútil.

Respondeu-lhe Chuang Tzu:
Já viu o gato do mato
Agachado, espreitando sua presa, -
Pula assim, e assim,
Para cima e para baixo, e por fim
Cai na armadilha.

Mas o iaque, já viu?
Poderoso qual trovão
Mantém-se com sua força.
Grande? Claro que sim,
Mas não sabe pegar ratos!

Assim, a sua árvore inútil. Inútil?
Plante-a então no terreno baldio
Sozinha
E caminhe a esmo, em torno dela,
Descanse à sua sombra;
Nenhum machado ou decreto proclamará o seu fim.
Ninguém jamais a abaterá.
Inútil? Que me importa!


.


Tradução: Thomas Merton

+

"O período clássico da filosofia chinesa compreende cerca de 300 anos, de 550 a 250 aC. Chuang Tzu, considerado o maior escritor taoísta de cuja existência histórica se tem notícia [...], floresceu no final deste período."

Trecho de "Um estudo sobre Chuang Tzu" e poema extraídos de:
MERTON, Thomas. "A Via de Chuang Tzu"; Petrópolis: Vozes, 1984

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

tô tao pô ema





sendo senda
ando
indo
leve
soul
tao e quao
seda
cedo
vergo
em mim
e
de mim
até me perco
mas
só assim
verso
e
apareço




[RM]
+
Constantin Brancusi [1876-1957]; Sculpture for the blind, veined marble [c. 1920]

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

passageiro[s]



o poema
segue o trajeto viaja
faz o caminho direto indireto
balança na curva não perde a linha a ternura jamais
corpo estranho imóvel entre mortais apressados
guarda a palavra
aguarda em ávido altivo silêncio
anseia
inespera
o momento ínfimo
o sublime fugaz exato
o instante passageiro
do encontro
de um improvável leitor qualquer consigo mesmo


.


[R.M.]


+





O projeto Leitura em Trânsito é uma iniciativa do CEAT - Centro Educacional Anísio Teixeira:
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http://www.ceat.org.br/janelas_index/leituraemtransito.htm

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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

José Barbosa da Silva, café performer



Rua do Ouvidor, centro do Rio, manhã de 22 de dezembro. Calor de verão recém-chegado e toda aquela agitação pré-natalina no ar. Imagino compartilhar com a multidão os sentimentos totalmente contraditórios que acompanham qualquer ser minimamente humano nesta época do ano: como conciliar o amor ao próximo, essencial para a vivência do tal espírito do Natal se, de tão próximos que estamos, eu e meu próximo nos esbarramos a cada passo?

Cada um se defende como pode e eu busquei o conforto de um mate gelado enquanto formulava um arremedo de teoria metafísica acerca da incontestável natureza da relação inversamente proporcional entre a proximidade física e espiritual: pois os iluminados não se iluminam, preferencialmente, na montanha ou no deserto? Um pouco mais refeito por ter encontrado um amparo intelectual para o meu corpo esgotado, assim argumentava eu comigo mesmo - o que aumenta consideravelmente as chances de se estar certo... - quando avisto um ponto de exclamação amarelo que caminha em minha direção. Surpreso, observo este ser humano calmo, de passos leves, como que navegando suave por entre o mar revolto de gente. Não resisto e troco o mate gelado pelo café quentinho desse incomum José.

Degustado o café, segue-se a inevitável conversa que começa pelo nome completo desse ambulante-performer: José Barbosa da Silva. De fala tão ou mais suave que o caminhar, José se mostra de uma polidez e reserva em tudo contrastante com a indumentária: uma alma de Klee manifesta pela paleta de um Van Gogh. Sou movido pela curiosidade pelos tipos urbanos que com sua simples presença reumanizam as ruas, mas logo abandono as perguntas, pois observo que este José é de poucas palavras: ele prefere dizer quem é com sua presença e tudo que a acompanha: o café, o caminhar suave, a dignidade e uma cordialidade que de tão humana é rara entre humanos.

O encontro é breve. Nos despedimos. José segue seu caminho por entre a multidão e eu retomo o meu. Na superfície do mundo, nenhuma mudança. Mas o próximo que agora se afasta com seu caminhar suave, com sua presença me reaproximou de mim mesmo e, assim, me fez novamente próximo dos próximos que ainda esbarram em mim.

Um milagre tão humano e horizontal. Um milagre banal. Um milagre de Natal?



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[R.M.]