domingo, 20 de maio de 2012

Confluências: Clarice Villac




integração -

raízes & escadas...

transmutação -

coração em camadas...



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Poema de 
Clarice Villac
para 
"Figura
gravura em metal [água forte] 
de
Raul Motta



+

Clarice Villac

Diálogos: Luiza Maciel Nogueira

Desenho de Luiza Maciel Nogueira






a lágrima diz
do mar dentro da gente - 
marés da alma.



[R.M.]



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haicai para o desenho 
de 

quinta-feira, 3 de maio de 2012

ser e ter

por inteiro
a parte
que me cabe

por à parte
tudo
que não cabe



[r.m.]

domingo, 29 de abril de 2012

bicho-homem

o desejo quer sabor
a fome só quer saber
do comer

a fome
direta
arco e seta
mira
se atira
atinge a meta

o desejo
sinuoso
profundo
vai ao osso
busca
o tutano do mundo

fome é desejo sem lastro
desejo é fome sem nome
mas se a fome é de todo bicho
o desejo é todo do homem

e como soube -
desde sempre - o bicho-homem:

o que é do desejo
a fome não come



[R.M.]

sábado, 28 de abril de 2012

cinquenta

bati de frente
no muro
dei de cara
comigo

achei o que procuro

o muro não é espelho
o mundo não é abrigo




[r.m.]

quarta-feira, 25 de abril de 2012

p.s.

falada
escrita
lida
todos os caminhos levam à palavra
vida



[r.m.]

segunda-feira, 16 de abril de 2012

aflora

louca a vida
ainda mais profunda
à flor da pele



[r.m.]

sábado, 31 de março de 2012

"Escritos em Liberdade"

Clemente Padín, "Signografias", 1968
Clemente Padín, "Signografias", 1968

Edgardo A. Vigo, "Sinais nº18"
Uma ocasião única, verdadeiramente especial: presenciar uma performance do poeta uruguaio Clemente Padín. A ocasião se deu no encerramento da igualmente bem vinda exposição Escritos em Liberdade - poesia experimental espanhola e hispano-americana do século XX, no Instituto Cervantes.
Felipe Boso, "Lluvia"
Clemente Padín, um dos mais importantes criadores da poesia visual, ofereceu ao público uma palestra-performance intitulada Poesia Experimental Autorreflexiva, uma aula informal e dinâmica em que as performances conviviam com explanações teóricas e informações históricas altamente substanciais.
Presentes, a poeta Regina Pouchain, Wlademir Dias-Pino, poeta e teórico, participante da Exposição Nacional de Arte Concreta [São Paulo, 1956] e um dos criadores do movimento poema-processo, a pesquisadora Neide Dias de Sá e Fernanda Nogueira, acadêmica e pesquisadora integrante do grupo Red Conceptualismos del Sur formaram, ao final do evento, uma pequena roda em torno de Padín. E a palavra, sempre ela, se fez troca e conversa.

CO-NEXOS

Padín e o poema PATRIA, de Jorge Caraballo
Ao fim da noite, a convicção de que as possibilidades da palavra, suas vidas possíveis, suas encarnações são infinitas. Ideia expressa na coincidência que uniu nas mesmas coordenadas de tempo-espaço a palavra poética exposta e compartilhada e o protesto dos funcionários do Instituto Cervantes contra a recente reforma trabalhista na Espanha. Manifestações distintas, mas que guardam algo em comum: a necessidade humana, demasiado humana, de se fazer uso e de se re-fazer no uso das palavras.
Em liberdade!




"Isto é poesia"


palavras que lutam

palavras que lutam
são mais que palavras
palavras que lutam
são corpos
sãos
pontes sobre
vãos
palavras que lutam
aqui
agora
presentes
fazem da hora
hora de ação
palavras que lutam
negam o luto
são
grito
e
oração
que sigam sempre
ativas
altivas
vivas
em nós
todas as palavras
que lutam
por nós


[R.M.]



segunda-feira, 26 de março de 2012

ensaios

"Barquinho"; Renata Linhares, guache s/ papel, s.d.


o ser
em instável equilíbrio
sai de si
busca o amparo

o ser
em instável equilíbrio
cai em si
ampara-se na busca



[r.m.]

quinta-feira, 15 de março de 2012

noves fora





o poema nada sabe sobre
não paira acima
não olha de fora
não tem umbigo
o poema nunca nasceu
não tem ego
id
superego
nunca teve nada a ver com isso
ou aquilo
o poema não reza -
ora -
e toda hora é agora
o poema não se debruça à janela
não para pra ver passar a banda
o poema é a banda em silêncio
o publico em silêncio atônito atento ao silêncio da banda
o poema não presta e confessa:
amei a poesia
dormi com o poeta
mas isso foi um dia depois
matei a poesia
escarrei no poeta
o poema sempre foi sem eira nem beira
o poema assume que sonha acordado
que fala sozinho
que é louco varrido
barroco e concreto
o poema não cerca o Lourenço
não leva desaforo pra casa
não foge da luta
sin perder la ternura
o poema é uma pedra no caminho do poeta
o chumbo das asas
o salto
o assalto ao trem pagador
o poema é a pipa
o azul
a linha
o cerol
o cerol na linha
a linha na linha no azul
o corte a perda
o poema é o luto
a lápide
a vida eterna
de corpo presente
o poema não serve pra nada mas -
desde sempre - foi sempre um poema
a preencher de vida
a morte da vida
na gente






[R.M.]

+

imagem
Raul Motta
Sem título; monotipia xilográfica; s.d.



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 Poema republicado no blog Cronísias
Meus agradecimentos ao poeta Fred Caju