sábado, 12 de fevereiro de 2011

Tahrir



a praça é o ponto
o centro
de tudo

a praça é o tempo
que corre
o alento

a praça é o eixo
incerto
do novo

a praça é o fluxo
que corre
à margem

a praça é o ventre
o abrigo
alimento

a praça é o vômito
do mundo
profundo

a praça é o sonho
a soma
que somos

a praça é o vértice
a ponta
da lança

a praça é o vórtice
a festa
a dança

a praça é o fogo
o furor
que consome

a praça é o todo
é toda
do povo




[R.M.]

+

imagem aérea da Praça Tahrir, Cairo, Egito; Associated Press

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Hui Neng






"Não há árvore Bodhi,
nem o cessar do brilho no espelho.
Sendo tudo vazio, onde
poderia assentar o pó?"





Tradução de Elza Bebiano do gâthâ de Hui Neng [638-713], Sexto Patriarca da linhagem chinesa do zen.
In: SUZUKI, Daisetz Teitaro [1870-1966]. "A Doutrina Zen da Não-mente"; São Paulo: Editora Pensamento, 1993.

+
imagem
Hui Neng tearing sutras

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

kyudo

certa
a palavra é
a palavra que
no poema
é alvo
e seta -
sendo arco
o poeta









[R.M.]
+
"enso" ["círculo"]; caligrafia japonesa, autor desconhecido


et circenses

o pão nosso de cada dia
com manteiga
nos dai hoje






[R.M.]

+
Marcel Duchamp; "Air de Paris", ready-made, 1919 [1964 version]. Glass and wood, 14.5 x 8.5 x 8.5 cm.

.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

poucas e boas





I

verborragia
verbo
azia




II

[de mais
a
mais
mesmo
o
menos
ainda
pode ser
demais
]





[R.M.]
[a partir de um comentário feito pela Mariana www.buhobranca.blogspot.com]
+
Mira Schendel; monotipia s/papel de arroz; 47 x 24 cm. [1964]

à Hans Arp




o acaso me trouxe até aqui
digo:
presente! aqui estou!
eu que nada sabia sobre o mundo até abrir o primeiro sorriso
desde então este mundo e eu nos queremos
como dois amantes que já se tornaram velhos conhecidos
seguindo de mãos dadas
o desejo ainda intenso de vida pela frente
tanto ainda por fazer!
quem vive pelos sentidos percebe o sentido do que vive em todas [as coisas
as mãos sempre prontas à ação
hábeis ou inábeis, não importa!
a arte não é nada?
minha resposta é o fazer e o refazer
o trabalho é minha música
seja audível ou inaudível
todo som tem sua frequência
e cedo ou tarde por alguém é captado
no ar fresco que sopra lá fora tudo existe e se completa
em tudo que respiro
sinto a presença:
arte-nada
a regra que me rege
meu não
um grande sim
ao mundo que é o mundo









[R.M.]

+

Hans Arp [1886-1966] em fotografia de 1922
"Duas cabeças" [1927]; óleo e barbante s/ tela; 35 x 27 cm

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

ludens







o

poema

é

o pio

do

ovo







[R.M.]

+

Paulo Pasta, sem título, óleo s/ tela, 2000

+

feliz por estar também em

http://buhobranca.blogspot.com/2011/02/lundes.html

grato pela poética abdução, Mariana!

domingo, 30 de janeiro de 2011

A Árvore Inútil de Chuang Tzu




Hui Tzu disse a Chuang:
Tenho uma grande árvore,
Que se chama "mal cheirosa".
Seu tronco tão torto
É tão cheio de nós
Que ninguém pode dele tirar uma só tábua.
Os galhos são tão retorcidos
Que você não consegue cortá-los
De modo a que sejam úteis.

Lá está ela à beira da estrada.
Carpinteiro nenhum a olhará.
Eis o seu ensinamento -
Grande e inútil.

Respondeu-lhe Chuang Tzu:
Já viu o gato do mato
Agachado, espreitando sua presa, -
Pula assim, e assim,
Para cima e para baixo, e por fim
Cai na armadilha.

Mas o iaque, já viu?
Poderoso qual trovão
Mantém-se com sua força.
Grande? Claro que sim,
Mas não sabe pegar ratos!

Assim, a sua árvore inútil. Inútil?
Plante-a então no terreno baldio
Sozinha
E caminhe a esmo, em torno dela,
Descanse à sua sombra;
Nenhum machado ou decreto proclamará o seu fim.
Ninguém jamais a abaterá.
Inútil? Que me importa!


.


Tradução: Thomas Merton

+

"O período clássico da filosofia chinesa compreende cerca de 300 anos, de 550 a 250 aC. Chuang Tzu, considerado o maior escritor taoísta de cuja existência histórica se tem notícia [...], floresceu no final deste período."

Trecho de "Um estudo sobre Chuang Tzu" e poema extraídos de:
MERTON, Thomas. "A Via de Chuang Tzu"; Petrópolis: Vozes, 1984

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

tô tao pô ema





sendo senda
ando
indo
leve
soul
tao e quao
seda
cedo
vergo
em mim
e
de mim
até me perco
mas
só assim
verso
e
apareço




[RM]
+
Constantin Brancusi [1876-1957]; Sculpture for the blind, veined marble [c. 1920]

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

passageiro[s]



o poema
segue o trajeto viaja
faz o caminho direto indireto
balança na curva não perde a linha a ternura jamais
corpo estranho imóvel entre mortais apressados
guarda a palavra
aguarda em ávido altivo silêncio
anseia
inespera
o momento ínfimo
o sublime fugaz exato
o instante passageiro
do encontro
de um improvável leitor qualquer consigo mesmo


.


[R.M.]


+





O projeto Leitura em Trânsito é uma iniciativa do CEAT - Centro Educacional Anísio Teixeira:
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http://www.ceat.org.br/janelas_index/leituraemtransito.htm

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